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Entre a Ética e o Ego: O Dever de Solidariedade na Enfermagem em Portugal

A enfermagem é, por definição, uma profissão de equipa. No entanto, nos corredores dos hospitais e centros de saúde em Portugal, vive-se frequentemente um paradoxo: ao mesmo tempo que o Código Deontológico exige união, o stress e a hierarquia informal alimentam, por vezes, uma necessidade tóxica de superioridade entre pares.

​Neste artigo, exploramos a obrigatoriedade de defesa mútua entre enfermeiros e o impacto psicológico da busca pelo “status” dentro da profissão.

​1. O que diz a Lei: O Dever de Solidariedade

​Em Portugal, a conduta do enfermeiro não é apenas uma questão de “bom senso”. O Estatuto da Ordem dos Enfermeiros (EOE), especificamente no seu Artigo 105.º, estabelece que a solidariedade é um dever institucional.

​Defender um colega significa:

​Prestar auxílio em situações de dificuldade técnica.

​Repor a verdade perante críticas injustas de terceiros (doentes, famílias ou outros profissionais).

​Manter um tratamento de respeito e urbanidade, independentemente da antiguidade.

​A ressalva importante: Solidariedade não é silêncio cúmplice. O dever de proteger o doente é sempre superior. Se um colega coloca em risco a segurança clínica, a defesa dá lugar ao dever de reporte ético.

​2. A Necessidade de Superioridade: Por que acontece?

​A expressão inglesa “Nurses eating their young” (Enfermeiros que devoram os seus novos) ilustra um fenómeno global que também se sente em Portugal. A necessidade de um enfermeiro se sentir superior a outro pode ter várias origens:

​A Insegurança como Gatilho

​Muitas vezes, a arrogância é uma máscara para a insegurança. Num sistema de saúde sob pressão constante, projetar superioridade técnica serve como um mecanismo de defesa para evitar o escrutínio sobre as próprias falhas.

​O “Status” da Especialização

​Com a crescente diferenciação entre Enfermeiros de Cuidados Gerais e Enfermeiros Especialistas, surge por vezes um fosso. Em vez de o conhecimento ser usado para elevar a equipa, é usado como ferramenta de poder e exclusão.

​3. As Consequências do “Ego” na Prestação de Cuidados

​Quando a necessidade de superioridade se sobrepõe à colaboração, o ambiente degrada-se rapidamente:

​Risco Clínico: A quebra na comunicação impede que erros de medicação ou de interpretação de sinais vitais sejam corrigidos a tempo.

​Burnout Precoce: Novos profissionais abandonam o serviço por se sentirem humilhados ou desapoiados, agravando a carência de enfermeiros no SNS.

​Perda de Credibilidade: Uma equipa desunida perde força perante a administração e perante a sociedade.

​4. Como cultivar uma cultura de Paridade?

​Para reverter esta tendência e cumprir o espírito da Ordem, é necessário:

​Mentoria, não Monitoria: O enfermeiro mais experiente deve ver-se como um guia, não como um inspetor.

​Feedback Construtivo: Criticar em privado, elogiar em público. A correção deve focar-se no procedimento, nunca na pessoa.

​Liderança Humanizada: As chefias devem identificar e travar comportamentos de “bullying” profissional assim que surgem.

​Conclusão

​A enfermagem portuguesa é das mais resilientes do mundo, mas a sua maior força reside na coesão. Defender um colega não é apenas cumprir um artigo do Estatuto; é garantir que a profissão mantém a sua dignidade. A verdadeira superioridade de um enfermeiro demonstra-se pela sua capacidade de tornar os que o rodeiam ainda melhores.

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​Já sentiu que a necessidade de superioridade afetou o seu trabalho? Como lida com a falta de solidariedade no seu serviço? Deixe o seu comentário abaixo.

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