O REPE e o Estatuto da Profissão de Risco em Portugal: Um Caminho Necessário

A enfermagem portuguesa vive um momento de encruzilhada. Se, por um lado, a qualificação dos profissionais nunca foi tão elevada, por outro, as estruturas legislativas que sustentam a profissão parecem ancoradas no passado. O debate centra-se em dois eixos fundamentais: a revisão do Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros (REPE) e o reconhecimento da enfermagem como profissão de risco e desgaste rápido.
O REPE: Mais do que um Regulamento, uma Identidade
O Decreto-Lei n.º 161/96, que aprovou o REPE, foi um marco histórico. No entanto, decorridas quase três décadas, o hiato entre a norma e a prática clínica é evidente. O enfermeiro de hoje assume competências avançadas, gere unidades complexas e possui uma autonomia que o texto original de 1996 não previa na totalidade.
A revisão do REPE é imperativa para clarificar os atos próprios de enfermagem e reforçar a fronteira entre os cuidados autónomos e interdependentes. Sem uma base legal sólida e atualizada, a segurança jurídica do profissional fica vulnerável.
O Desgaste Rápido: Uma Realidade Científica
A reivindicação pelo Estatuto de Profissão de Risco não é apenas uma luta sindical; é uma questão de saúde ocupacional. Os enfermeiros enfrentam fatores críticos:
- ✓ Ritmo Circadiano: O impacto do trabalho noturno e por turnos na saúde a longo prazo.
- ✓ Riscos Ambientais: Exposição biológica, química e física constante.
- ✓ Carga Mental: Gestão direta do sofrimento humano e situações de emergência.
- ✓ Desgaste Físico: Elevada prevalência de patologias da coluna e articulações.
Conclusão
A sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) depende da retenção destes profissionais. Ignorar a necessidade de um novo REPE e o reconhecimento do desgaste rápido é empurrar os enfermeiros para a emigração ou para o abandono da profissão. É tempo de a legislação portuguesa reconhecer que cuidar de quem cuida é o primeiro passo para uma saúde pública de excelência.



