Enfermagemopinião

O Inimigo Mora ao Lado: Quando o Maior Obstáculo da Enfermagem somos Nós Próprios

Nota editorial: Em Portugal, lutamos por rácios, por uma carreira digna e pelo reconhecimento social. Mas será que, dentro dos serviços, estamos a ser os aliados que exigimos que o Ministério seja?

Diz-se que a Enfermagem é a arte de cuidar. Contudo, entre turnos de 8 horas quase seguidos, noites mal dormidas e a pressão das urgências, surge uma questão que raramente sai das salas de pausa: por que razão somos tão resilientes com o sistema e tão implacáveis com os nossos pares?Muitas vezes, a barreira para a valorização da nossa profissão não vem apenas da tutela ou das administrações hospitalares. O “fogo amigo” entre os seus pares de enfermagem é, frequentemente, o que mais desgasta a nossa saúde mental e a união da classe.

1. O “Batismo de Fogo” dos Recém-Licenciados

Ainda persiste em muitos serviços a ideia de que o enfermeiro recém-licenciado tem de “sofrer” para aprender. Em vez de uma mentoria estruturada, muitos jovens colegas encontram o sarcasmo perante a dúvida e o isolamento na dificuldade.

O impacto: Perdemos novos talentos para o estrangeiro não só pelo salário, mas porque lá fora encontram ambientes de equipa onde o erro é uma oportunidade de aprendizagem, e não um motivo de “chacota” no corredor.

2. A Cultura do Martírio e o “Presentismo”

Em Portugal, existe quase uma competição silenciosa para ver quem está mais exausto. Se um colega decide gozar os seus dias de descanso sem atender o telemóvel para substituir um turno, ou se prioriza a sua saúde mental, é muitas vezes rotulado de “pouco disponível”.

A armadilha: Ao criticarmos o colega que impõe limites, estamos a dar oxigénio a um sistema que sobrevive à custa da nossa abdicação pessoal. O descanso do colega não é o teu problema; a falta de dotações seguras é que é.

3. Feudos entre Serviços e Categorias

Seja na transição de cuidados entre o internamento e os blocos, ou nas picuices durante a passagem de turno, a falta de unidade é gritante. Criticamos o plano de cuidados do colega sem conhecer o contexto do turno anterior. Criamos divisões que só servem para nos enfraquecer enquanto grupo perante os decisores políticos.

Mudar o Paradigma: Compromisso de Classe

  • 🤝 Solidariedade Técnica: Se vês um colega “afogado” em tarefas, ajuda. Amanhã serás tu a precisar de mãos extra.
  • 📢 Feedback Direto e Ético: Tens algo a dizer sobre o trabalho de um colega? Diz-lhe a ele, frontalmente, e nunca perante o doente ou outros profissionais.
  • 💪 União Fora do Serviço: A valorização da Enfermagem em Portugal só acontecerá quando o respeito que exigimos da sociedade começar no respeito que temos uns pelos outros.

“Um Enfermeiro que não cuida do seu par, dificilmente terá força para exigir que o mundo cuide da sua profissão.”

Artigo de Opinião destinado à comunidade de Enfermagem em Portugal. Partilha esta reflexão no teu serviço.

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