O Perigo da “Falsa Confiança”: O Efeito Dunning-Kruger na Enfermagem em Portugal

Já se cruzou com um colega recém-licenciado que, após uma semana num Serviço de Urgência, agia como se não houvesse mais nada a aprender? Ou, talvez, um profissional experiente que, por excesso de confiança na rotina da enfermaria, acabou por negligenciar um sinal crítico num EWS (Early Warning Score)?
Na enfermagem, a confiança é vital, mas quando ela ultrapassa a competência técnica e científica, entramos num terreno perigoso. Este fenómeno tem nome: Efeito Dunning-Kruger.
O que é o Efeito Dunning-Kruger?
Proposto pelos psicólogos Justin Dunning e David Kruger, este viés cognitivo sugere que profissionais com baixo nível de competência numa área específica tendem a superestimar a sua própria capacidade. Por outro lado, os especialistas (Enfermeiros Especialistas ou Gestores) costumam subestimar a sua mestria, acreditando que o que é óbvio para eles também o é para todos.
Na nossa prática clínica, seja no SNS ou no setor privado, esta curva de aprendizagem é visível:
1. O “Topo da Montanha da Ignorância”
É o estágio inicial, comum em estudantes no último ano ou recém-licenciados. O profissional tem a teoria fresca, mas pouca vivência do “caos” clínico. Acredita que domina os protocolos da DGS e que a prática é linear. É aqui que residem os maiores riscos de incidentes de segurança.
2. O “Vale do Desespero”
À medida que o enfermeiro enfrenta situações reais — paragens cardiorrespiratórias, falências multiorgânicas ou intercorrências complexas — a confiança desmorona. Percebe que a enfermagem é uma ciência de detalhes infinitos. Este é o ponto de viragem para a maturidade profissional.
3. O “Planalto da Iluminação”
O enfermeiro atinge a competência plena. Recupera a confiança, mas agora baseada na Prática Baseada na Evidência, na humildade e na consciência constante dos seus limites e das competências previstas no REPE (Regulamento do Exercício Profissional dos Enfermeiros).
Impacto na Segurança do Doente em Portugal
A enfermagem portuguesa é reconhecida pela sua excelência, mas o excesso de confiança sem base científica pode levar a falhas graves:
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- Erros na Administração de Terapêutica: Facilitar na regra dos “5 certos” por achar que a rotina substitui o rigor.
- Subvalorização de Sinais Clínicos: Ignorar uma alteração sutil num dreno ou um agravamento hemodinâmico por excesso de otimismo (“ele está estável”).
- Falha na Passagem de Turno: Omitir dados cruciais por considerar que “o colega já sabe o que fazer”.
Nota Crítica: O oposto do Dunning-Kruger é o Síndrome do Impostor, muito comum em enfermeiros altamente qualificados que duvidam do seu valor. Enquanto o “impostor” sofre em silêncio, o “Dunning-Kruger” coloca o doente em risco.
3 Estratégias para Gestores e Enfermeiros de Referência
Como podemos mitigar este efeito nas nossas unidades de saúde?
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- Cultura de Segurança e Relato de Erro: Incentivar o reporte de incidentes (via NOTIFICA) sem caráter punitivo, mas como ferramenta de aprendizagem.
- Debriefing Clínico: Após turnos complicados ou paragens, realizar breves reuniões para analisar o que correu bem e o que falhou, nivelando a perceção de competência da equipa.
- Formação Contínua e Simulação: Utilizar centros de simulação biomédica para confrontar os profissionais com os seus limites técnicos de forma segura.
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Conclusão: A Humildade Profissional como Dever Ético
Ser um excelente enfermeiro em Portugal não é saber tudo, mas sim saber quando pedir ajuda. Reconhecer o Efeito Dunning-Kruger em nós próprios é o primeiro passo para cumprir o nosso código deontológico e garantir que a segurança do doente está acima do nosso ego.
E na sua unidade de saúde? Já sentiu este efeito na pele ou num colega? Partilhe a sua experiência nos comentários!



