Fernanda Estevinho: “Esta opção terapêutica traz uma nova esperança” para doentes com cancro do pulmão de não pequenas células escamoso metastático

HealthNews (HN)- O Infarmed aprovou a comparticipação de pembrolizumab em combinação com carboplatina e com paclitaxel ou nab-paclitaxel para o tratamento de primeira linha de doentes com cancro do pulmão de não pequenas células escamoso metastático. Quais as necessidades ainda não satisfeitas que KEYTRUDA® vem colmatar?
Fernanda Estevinho (FE)- Até existir esta comparticipação, os doentes com carcinoma escamoso e doença avançada dispunham de quatro opções de primeira linha: imunoterapia em monoterapia, quimioterapia, terapêuticas alvo ou cuidados paliativos sintomáticos.
A presença de mutações é, em geral, menos frequente em doentes com carcinomas escamosos comparativamente a doentes com adenocarcinoma, pelo que a presença de mutações era sobretudo pesquisada em doentes ex-fumadores ou com baixo consumo tabágico. Nos doentes com expressão de PD-L1 igual ou superior a 50%, sem contraindicação para imunoterapia, está aprovada a terapêutica com pembrolizumab em monoterapia, com base no ensaio clínico de fase 3 KEYNOTE-024. Esta nova comparticipação do Infarmed vem permitir que doentes com expressão de PD-L1 menor que 50% tenham possibilidade de realizar tratamento de primeira linha com imunoterapia em associação a quimioterapia, com benefício na sobrevivência e qualidade de vida.
HN- Qual é o mecanismo de ação deste medicamento?
FE- O pembrolizumab é um anticorpo monoclonal que se liga ao recetor de morte celular programada 1 (PD-1), bloqueando a via PD-1 / PD-L1, e removendo a inibição da resposta imune. A combinação tem um efeito sinérgico e, além da ação da quimioterapia, a atividade do pembrolizumab é potenciada pelas propriedades imunogénicas da quimioterapia citotóxica, tais como o aumento de libertação de antigénios das células tumorais.
HN- A que doentes se destina?
FE- O Infarmed comparticipou esta terapêutica para o tratamento de 1.ª linha de doentes com carcinoma escamoso do pulmão e com expressão de PD-L1 menor que 50%. Note-se que, no estudo KEYNOTE-407, o benefício na sobrevivência global é observado inclusivamente em doentes em que a expressão de PD-L1 é menor que 1%.
Contudo, doentes com estado geral debilitado ou com contraindicação para imunoterapia não são candidatos a este tratamento.
HN- Trata-se de uma condição muito prevalente? Há números?
FE- Em 2020, registaram-se, em Portugal, cerca de 5 415 novos diagnósticos de cancro do pulmão e 4 797 óbitos, constituindo a terceira neoplasia maligna com maior incidência e a principal causa de mortalidade por cancro.
No cancro do pulmão distinguem-se dois grandes grupos – o cancro do pulmão de não pequenas células (80-85%) e o cancro do pulmão de pequenas células. No grupo do cancro do pulmão de não pequenas células, os dois tipos histológicos mais frequentes são o adenocarcinoma e o carcinoma escamoso.
Cerca de 30% dos doentes com cancro do pulmão têm o diagnóstico de carcinoma escamoso. Dentro deste grupo, os candidatos a terapêuticas alvo de primeira linha (cerca de 5%) ou imunoterapia em monoterapia (menor que 30%) representam uma minoria.
No entanto, para a maioria dos doentes com carcinoma escamoso do pulmão, na ausência de contraindicações, há agora uma nova opção em primeira linha.
HN- Quais os principais resultados do ensaio clínico de fase 3 KEYNOTE-407 que informaram a decisão agora tomada pelo Infarmed?
FE- No ensaio clínico KEYNOTE-407, o tratamento com pembrolizumab em combinação com quimioterapia (carboplatina e paclitaxel ou nab-paclitaxel) foi comparado com quimioterapia e placebo, revelando uma redução do risco de progressão de 43%, de mortalidade em cerca de 30% e melhoria da qualidade de vida.
HN- Quer deixar uma nota final?
FE- A evolução da ciência, a contínua investigação de novos alvos, mecanismos de ação e opções terapêuticas (com recurso a ensaios clínicos) têm contribuído para a melhoria dos tratamentos e para o aumento da sobrevivência e da qualidade de vida.
É importante a prevenção pela evicção tabágica, o diagnóstico precoce, o recurso ao médico na presença de sintomas suspeitos e a confiança na evolução terapêutica multidisciplinar. A terapêutica com imunoterapia associa-se a um padrão de eventos adversos diferente, para o qual o doente deverá estar alerta. No entanto, esta opção terapêutica traz uma nova esperança.
Entrevista de Rita Antunes
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