O que é a Cascata Isquémica Cerebral no AVC

Quando o cérebro deixa de receber oxigénio e glicose, desencadeia-se uma série de alterações metabólicas que levam progressivamente à disfunção neuronal e, eventualmente, à morte celular.
Conceito-chave:
A cascata isquémica é responsável pela progressão do dano cerebral após um AVC e explica porque o tratamento precoce é essencial para salvar tecido cerebral viável.
1. Redução do fluxo sanguíneo cerebral
O primeiro evento da cascata ocorre com a redução ou interrupção do fluxo sanguíneo cerebral, geralmente causada por:
- Trombose arterial
- Embolia cerebral
- Hipoperfusão sistémica
A diminuição do fluxo provoca hipóxia e hipoglicemia celular.
2. Falência energética celular
Sem oxigénio e glicose, as células deixam de produzir ATP, a principal fonte de energia celular.
Como consequência ocorre:
- Falência das bombas iónicas dependentes de ATP
- Acumulação de sódio e cálcio no interior da célula
- Entrada de água na célula
- Edema citotóxico
3. Despolarização neuronal
A falência das bombas iónicas provoca despolarização das membranas neuronais.
Este processo leva à libertação excessiva de neurotransmissores excitatórios, principalmente:
- Glutamato
- Aspartato
4. Excitotoxicidade
A libertação excessiva de glutamato ativa recetores neuronais (NMDA e AMPA), provocando:
- Entrada maciça de cálcio nas células
- Ativação de enzimas destrutivas
- Lesão das membranas celulares
- Dano mitocondrial
Excitotoxicidade:
É um dos mecanismos centrais da lesão neuronal no AVC e contribui significativamente para a morte celular.
5. Formação de radicais livres
O aumento do cálcio intracelular e a disfunção mitocondrial levam à formação de espécies reativas de oxigénio (ROS).
Estes radicais livres causam:
- Peroxidação lipídica
- Dano no DNA
- Alterações proteicas
- Disfunção mitocondrial adicional
6. Inflamação cerebral
A lesão celular ativa uma resposta inflamatória local caracterizada por:
- Ativação de microglia
- Libertação de citocinas inflamatórias
- Recrutamento de leucócitos
- Aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica
7. Morte celular
O estágio final da cascata isquémica é a morte celular, que pode ocorrer através de dois mecanismos principais:
| Mecanismo | Localização | Características |
|---|---|---|
| Necrose | Núcleo do enfarte | Morte celular rápida e inflamatória |
| Apoptose | Penumbra isquémica | Morte celular programada |
Importância clínica da cascata isquémica
A compreensão da cascata isquémica explica a importância do conceito “Time is Brain”.
Quanto mais cedo o fluxo sanguíneo cerebral for restabelecido, maior será a probabilidade de preservar a penumbra isquémica.
As principais estratégias terapêuticas incluem:
- Trombólise intravenosa
- Trombectomia mecânica
- Monitorização neurológica intensiva
- Controlo metabólico e hemodinâmico
Conclusão
A cascata isquémica cerebral representa uma sequência complexa de eventos metabólicos e celulares desencadeados pela isquemia cerebral. Estes processos levam progressivamente à disfunção neuronal e à morte celular.
A intervenção terapêutica precoce é fundamental para interromper esta cascata e preservar o tecido cerebral viável.



