Relatório de balanço de 2025 alerta para “crise multidimensional” na saúde e “erosão de confiança” dos utentes


O ano passado ficou marcado por uma crise “multidimensional” no sistema de saúde português, caracterizada por uma rutura prolongada e pela perda de confiança dos cidadãos. De acordo com o barómetro anual “O Estado da Saúde em Portugal – 2025”, divulgado pela Consumers Trust Labs, registaram-se 5446 reclamações no Portal da Queixa, um aumento de 2,12% face ao ano anterior.
Enquanto o sector privado concentrou a maioria das queixas (71,94%), motivadas sobretudo por questões financeiras e contratuais, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) enfrentou as denúncias mais graves, focadas na falta de qualidade clínica e na dignidade humana.
Os dados de 2025 revelam que os problemas na saúde deixaram de ser pontuais para se tornarem estruturais, integrando o funcionamento regular do sistema. No sector privado, as 3918 queixas refletem uma quebra de expectativa contratual: o utente que paga exige rapidez e eficiência, reagindo imediatamente quando estas falham.
Já no sector público, com 1528 queixas, a reclamação é frequentemente um “ato de desespero” perante a falta de acesso a cuidados básicos. Lisboa concentra a maioria das queixas em ambos os sectores, mas o distrito de Setúbal destaca-se como um caso crítico devido à instabilidade crónica nas urgências obstétricas.
“Degradação” e “falhas catastróficas” no SNS, cobrança indevida no privado
No SNS, a principal causa de descontentamento foi a falta de qualidade do atendimento clínico, que motivou 54,62% das queixas dirigidas ao sector público. O relatório aponta cenários de “degradação humana e técnica”, exemplificados por casos de negligência percebida e falhas graves de acompanhamento em unidades como o Hospital de Vila Franca de Xira.
Além disso, o sistema sofreu “falhas catastróficas em infraestruturas críticas”, como o “apagão informático” no Hospital Amadora-Sintra em junho, que obrigou ao regresso aos registos em papel e expôs a fragilidade do investimento público.
Apesar de demonstrar maior agilidade na gestão da sua reputação pós-problema, o sector privado também foi muito visado. A cobrança indevida foi o principal motivo de queixa (24%), alimentada por um conflito aberto entre os grandes grupos de saúde e a ADSE. Este braço-de-ferro regulatório resultou em confusão sobre reembolsos e suspensão de convenções, empurrando beneficiários para custos inesperados.
Em paralelo, a ideia de rapidez no privado foi desmentida pela saturação das suas urgências: em períodos de colapso do SNS, a procura no privado subiu significativamente, levando a tempos de espera superiores a quatro horas e a um aumento de 200% nas queixas em agosto.
Greves prolongadas, grávidas em “peregrinações” e “cidadãos exaustos”
A paz social no sector foi inexistente em 2025, sintetiza o barómetro. Greves prolongadas e coordenadas de médicos, enfermeiros e técnicos de emergência do INEM paralisaram blocos operatórios e consultas, exacerbando o sentimento de insegurança. O terceiro trimestre foi particularmente crítico para a especialidade de Obstetrícia, com agosto a registar um aumento de 72,09% nas reclamações do sector público devido aos encerramentos rotativos de urgências. Grávidas em “peregrinações” entre hospitais e partos realizados em ambulâncias tornaram-se símbolos de um sistema fragmentado que sacrificou a continuidade dos cuidados pela gestão de contingências diárias.
O relatório conclui que o utente de 2025 é “um cidadão exausto”, confrontado com um sistema em que a dualidade falhou: quando o público entra em colapso, o privado não consegue absorver a procura sem degradar o seu próprio serviço.
Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa, afirma que “os dados de 2025 demonstram um falhanço claro da governação da saúde”, com o SNS a ser “empurrado para uma rutura operacional que o Governo não conseguiu antecipar nem corrigir” e o sector privado a acabar por “absorver o colapso do público sem capacidade para responder”. Para o ano já em curso, defende, “o principal desafio identificado é a reconstrução da confiança, através de maior previsibilidade no acesso aos cuidados, transparência e garantia de continuidade assistencial”.


