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SNS 2040: Da Gestão do Caos ao Planeamento do Futuro

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NOTA PRÉVIA: A DUREZA DO DIAGNÓSTICO

Se ao terminar este texto pensar: “são boas ideias, mas não é fácil” — parabéns. Acabou de diagnosticar o problema em Portugal. Porque o pensamento fácil foi exatamente o que nos trouxe até aqui.

O fácil (mais um fundo, mais uma comissão, mais uma reforma cosmética) não resolve problemas. Adia-os. Agrava-os. Multiplica-os.

Um SNS forte exige escolhas desconfortáveis. A primeira é esta: parar de gerir a sua agonia e começar a planear a sua recuperação.

AO SNS DE 1979: OBRIGADO PELO SERVIÇO. MERECES REFORMA DIGNA

Antes de falar em reforma, é preciso fazer justiça.

O SNS de 1979 foi uma conquista civilizacional. Deu acesso universal. Salvou milhões de vidas que, sem ele, teriam desaparecido em silêncio. Tirou gerações inteiras da exclusão. Formou profissionais que hoje são referência mundial. Durante 47 anos, cumpriu promessa: saúde para todos, independentemente da carteira.

Merece respeito. Merece gratidão.

E os profissionais que o sustentaram — médicos, enfermeiros, auxiliares, administrativos — merecem reconhecimento. Trabalharam com recursos escassos, cargas excessivas, salários injustos. Mantiveram o sistema de pé que, sem eles, teria colapsado há décadas. São heróis anónimos de batalha que não deviam ter travado sozinhos.

Mas a honestidade também é uma forma de respeito.

E a verdade é esta: continuar a fingir que o SNS de 1979 serve para o século XXI não é homenagem. É crueldade.

O modelo cumpriu a missão para Portugal de 1979 — população jovem, doenças agudas, internamentos curtos. Serviu bem esse propósito. Mas Portugal mudou. O mundo mudou. O SNS não se adaptou. Portugal envelheceu; as doenças tornaram-se crónicas e complexas; as expectativas dos cidadãos evoluíram. O SNS, em sua estrutura fundamental, ficou preso no passado.

Depois de 47 anos de serviço, o que este sistema menos merece é ser forçado a correr maratonas com o corpo de quem já deu tudo. Obrigar o SNS de 1979 a aguentar 2026 é como pedir ao cirurgião brilhante de 80 anos que faça urgências todas as noites: não é reconhecimento, é esgotamento.

O que lhe devemos agora é uma reforma digna. Reconhecer o legado, aprender com o que fez bem e com o que falhou, e aceitar que chegou a hora de lhe dar descanso — enquanto, com seriedade, preparamos o sistema que terá de o substituir.

O DIAGNÓSTICO: ARITMÉTICA SIMPLES, VERDADE BRUTAL

Não é preciso ser especialista em saúde pública. Basta saber somar e subtrair.

Os números de 2025, ordenados por gravidade:

  1. 90% dos portugueses perderam confiança no SNS (sondagem julho de 2025) — quando fé coletiva morre, o sistema perde legitimidade
  2. 1,6 milhões sem médico de família — 16% população sem porta entrada no sistema
  3. Défice SNS: €1,38 mil milhões (2024) — insustentável e a crescer
  4. SNS 24: 300.000 chamadas não atendidas/mês
  5. 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros em burnout severo (OCDE 2025)— metade profissionais esgotados
  6. Espera por cirurgia: 6-12 meses (aceitável: 1-3).

Estes não são “problemas conjunturais”. São sinais vitais de um sistema em falência.

2030 É DAQUI A 4 ANOS — E OS NÚMEROS SÃO IMPLACÁVEIS

E a fotografia agrava-se quando olhamos para o futuro próximo.

Segundo Ordem dos Médicos (2025), 5.000 médicos do SNS reformam-se até 2030 — um quarto do total. Abrimos 2.400 vagas de internato/ano, mas muitas ficam por preencher enquanto jovens médicos fazem contas: privado paga +40%; lá fora, mais e melhores condições.

Resultado: o SNS perde 700 médicos e 1.800 enfermeiros por ano. O SNS perde 7 profissionais por dia.

Pergunta óbvia: a esse ritmo, que SNS restará em 2030? Daqui a apenas 4 anos.

Onde está o planeamento estratégico?

É como saber que a ponte vai colapsar em 2030, ver fissuras aumentarem ano após ano e não fazer nada até cair.

Depois perguntamos: “Como é que isto aconteceu?”

O ERRO FUNDAMENTAL: CURATIVOS EM VEZ DE CIRURGIA

Falta resposta nas urgências? “Plano de contingência” para Natal.

Listas de espera crescem? Contratam-se privados pontualmente.

Profissionais emigram? Aumenta-se o salário em 2% e anuncia-se “valorização”.

É tratar cancro em fase avançada com aspirinas e comunicados de imprensa. Ganha-se tempo mediático. Perde-se tempo clínico.

O problema não é falta de informação. O problema é que não tratamos estes números como o que são: avisos com data marcada.

A “doença” do SNS não é financiamento (embora seja sintoma). A doença é a ausência total de planeamento estratégico de longo prazo.

E enquanto debatemos se se constrói mais um hospital central (solução do século XX para problemas do século XXI), a pergunta essencial permanece sem resposta:

“Que sistema de saúde queremos ter em 2040?”

Até respondermos a isto, estaremos apenas a remendar um modelo concebido para um mundo que já não existe.

E o resultado é previsível: mais do mesmo, só que pior.

ESTRATÉGIA E PRAGMATISMO: OS CONCEITOS BANIDOS

Por momentos, vamos deixar de lado as doces ilusões da ideologia e do autoengano. Vamos usar apenas dois conceitos aparentemente banidos do léxico da saúde em Portugal: ESTRATÉGIA e PRAGMATISMO.

A estratégia pergunta: “Onde queremos estar em 2040?” e, depois, desenha o caminho.

O pragmatismo pergunta: “O que funciona?” e, depois, ignora o que não funciona, independentemente de quão confortável seja a ilusão.

Estes conceitos são banidos porque exigem algo que Portugal evita: escolhas desconfortáveis baseadas em evidência, não em preferências ideológicas.

O FALSO DEBATE: PÚBLICO VS. PRIVADO (A TEOLOGIA QUE NOS PARALISA)

Aqui está o problema português em estado puro: ao primeiro sinal de debate sobre SNS, recuamos para as trincheiras ideológicas. É quase uma guerra religiosa em que a fé substitui a evidência.

De um lado: “Reforçar o público, investir mais, rejeitar o privado.”

Do outro: “Deixar o privado crescer, liberalizar o mercado.”

É um debate estéril. Porque a pergunta está errada.

Se aplicássemos estratégia e pragmatismo, a pergunta mudaria:

Não seria “Público ou Privado?”

Seria: “Que modelo gera melhores resultados em saúde a custos mais sustentáveis?”

E não seria opinião. Seria engenharia.

Engenheiro a construir ponte não pergunta “tijolo público ou privado?” Pergunta: “Que material aguenta o peso?” E depois testa. Mede. Usa o que funciona.

A Resposta dos Melhores: Pragmatismo Puro

Não é necessário “inventar a roda”. Basta olhar para os melhores 10 sistemas mundiais.

A resposta é esmagadora: nenhum é “puro”. Todos são híbridos inteligentes.

O padrão revela uma lógica simples e pragmática, que pode ser resumida numa analogia: é como uma orquestra: o maestro (Estado) define a partitura (os objetivos e padrões de saúde) e gera a harmonia geral. Contrata os melhores músicos — oriundos de conservatórios públicos, academias privadas ou projetos sociais — com um único critério: que toquem excecionalmente bem para quem realmente importa, o público (o paciente). A única métrica que interessa é o resultado clínico do doente e a eficiência global do sistema. O contribuinte financia a saúde, não um modelo de propriedade, muito menos a ideologia.

O PADRÃO COMUM: NINGUÉM INVENTOU A RODA

Todos os países que lideram rankings seguiram o mesmo caminho:

  1. Estudaram melhores exemplos globais
  2. Diagnosticaram necessidades próprias (demografia, economia, cultura)
  3. Adaptaram e combinaram soluções comprovadas
  4. Testaram em projectos-piloto
  5. Implementaram com disciplina feroz
  6. Ajustaram continuamente durante décadas

Taiwan estudou no Canadá e no Reino Unido. Coreia estudou Alemanha e Japão. Singapura estudou UK, Canadá, EUA.

Nenhum esperou que a solução perfeita caísse do céu. Todos foram pragmáticos: copiaram com inteligência, adaptaram estrategicamente, executaram disciplinadamente.

O QUE ISTO SIGNIFICA PARA O CIDADÃO

TAIWAN (#1 mundial): Um cartão dá acesso a qualquer médico ou hospital (público ou privado), quase sem listas de espera. Consulta com especialista em menos de 7 dias. Custos diretos quase zero. Satisfação 90%+. Gasta 6,6% do PIB.

SINGAPURA (#6): Sistema mais eficiente do mundo. Gasta apenas 4% do PIB. Esperança de vida saudável: 76 anos (vs. 85 anos de esperança de vida total). Zero listas de espera.

HOLANDA (Top 10): Acesso médico de família imediato. Satisfação 90%+. Escolha livre de prestador.

SUÍÇA (Top 10): Zero listas de espera, escolha livre de prestadores, qualidade de topo mundial.

Enquanto discutimos se o médico deve usar bata “pública” ou “privada”, o doente espera no corredor.

Enquanto debatemos a propriedade dos edifícios, 1,6 milhão de pessoas ficam sem médico-família.

Enquanto defendemos pureza ideológica, gastamos 10,6% do PIB e obtemos piores resultados do que Singapura, que gasta 4%.

A pergunta que falta fazer:

“Como desenhamos um sistema que funcione tão bem quanto o destes países?”

A resposta começa por deixar o dogma à porta e abraçar o pragmatismo.

Por perguntar “o que funciona?” em vez de “o que defende a minha ideologia?”

Por copiar os melhores em vez de inventar rodas quadradas.

COMO CHEGÁMOS AQUI: A CRONOLOGIA DO COLAPSO

1979: SNS criado. Apropriado para o contexto.

1990s-2000s: Portugal envelhece. Ninguém planeia adaptar o SNS. Pensamento: “Vai passar.”

2010s: Troika. SNS frágil. Profissionais emigram. Ninguém planeia. Pensamento: “É temporário.”

2020: COVID prova limites. Depois, esquecimento. Ninguém planeia. Pensamento: “Passou a tempestade.”

2024-2025: Colapso total. Ninguém planeia ainda. Pensamento: “Contratar mais médicos resolve.”

Isto é reatividade pura. Não é planeamento. É administrar desastres esperando que desapareçam sozinhos.

A REALIDADE INCÓMODA: PLANEAMENTO LEVA TEMPO

Verdade que Portugal não quer ouvir: uma reforma séria da saúde leva 10-15 anos.

Taiwan começou em 1990 e executou por 15 anos. A Coreia começou em 2000 e reformou-se ao longo de duas décadas. Costa Rica executou por 20+ anos, durante 4 governos.

Isto é realidade: reforma é um projeto transgovernamental, suprapartidário, com horizonte de 15+ anos.

Portugal quer “resolução” em 2 anos. Isso é receita para fracasso.

Não reformar também leva 15 anos. A diferença: com a reforma, chegamos a 2040 com um sistema reconstruído e de referência mundial. Sem reforma, chegamos com escombros.

MAS EXISTE ESPERANÇA

Portugal tem instituições ensino capazes, economia que pode financiar reforma, profissionais no estrangeiro que conhecem “como se faz,” tecnologia disponível (IA, telemedicina), exemplos reais para copiar, e população que quer mudança (90% perdeu confiança mas quer solução, não resignação).

O que falta é decisão de PLANEAR.

Planeamento não é burocracia. É uma antevisão estratégica: imaginar o futuro, diagnosticar a realidade, desenhar o caminho, executar com foco, medir e aprender.

Isto não é “sonho bonito”. É pragmatismo puro. Os melhores fazem. Portugal… não faz, mas pode fazer.

CONCLUSÃO: O SNS NÃO VAI “ACORDAR”

O SNS não vai mudar sozinho. Máquinas de 1979 não se modernizam a si próprias —  tornam-se irrelevantes.

O SNS vai mudar quando um governo decidir: “Isto é prioridade suprapartidária. Vamos planear uma reforma séria. Vamos deixar de reagir a crises e começar a antecipar o futuro. Vamos implementar com disciplina. Vamos aprender com quem já fez.”

Enquanto isso não acontecer, continuamos no mesmo ciclo: caos + reacção + adiamento.

Mas existe caminho. Existe modelo. Existe prova.

Na Parte II, veremos exatamente como se faz a reforma de saúde que funciona — passo a passo, exemplos reais, calendário realista, responsabilização clara.

O problema não é impossibilidade. É falta de coragem para planear.

 

 

 

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