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O labirinto das urgências: entre a fotografia do caos e a coragem de reformar

Nos últimos dias, uma fotografia circulou nas redes sociais: uma doente deitada no chão de uma urgência hospitalar, acompanhada pelo filho, por falta de macas. Não sei se a imagem é verdadeira – e, na verdade, pouco importa. A verossimilhança já basta para nos inquietar.

Ao fundo, outro doente repousa numa maca dos bombeiros, acompanhado pela tripulação e por uma funcionária. Entre estes dois quadros, forma-se uma espécie de clareira: pessoas que passam, olham e seguem. Um “espetáculo” involuntário, registado pelo smartphone, provavelmente sem consentimento, como se a vida do outro fosse apenas mais um conteúdo a partilhar.

Esta imagem põe-nos diante de três questões: a ética da exposição, a aparente novidade do caos nas urgências e, acima de tudo, o futuro que estamos a construir – ou a adiar – para o nosso sistema de saúde.

Solidão: o primeiro sinal de falência

A fotografia revela algo mais profundo do que a inexistência de uma maca: revela solidão. Um filho sozinho ao lado da mãe, sem apoio, sem enquadramento, sem uma mão institucional que a ampare. A mãe, deitada no chão do serviço público, sofre numa situação que, segundo relatos, seria paliativa.

Este é o primeiro fracasso. Um doente em cuidados paliativos nunca deveria chegar a uma urgência – um espaço de ruído, luz agressiva e pressa, a antítese da dignidade. Quando isso acontece, não é um acidente: é uma falha estrutural.

E distorce o debate sobre a própria Vida. Como falar em “escolha livre” pela morte quando o Estado não oferece alternativas consistentes de alívio do sofrimento? Num sistema que nega cuidados paliativos, a eutanásia pode deixar de ser um ato de autonomia e tornar-se uma solução de gestão – eficiente, discreta e conveniente para quem falhou em cuidar.

O caos não é novo: é crónico

Os serviços de urgência surgiram no pós-II Guerra Mundial como resposta essencial a um período de melhoria das condições de vida. Com o tempo, tornaram-se a principal porta de entrada no sistema de saúde, mesmo para casos que não configuram urgência e que deveriam ser avaliados em consultas externas.

À medida que a procura cresceu, a resposta repetiu-se quase sempre: mais recursos humanos, mais horas, mais improviso. Nos anos 60 surgiram os primeiros sistemas de triagem, depois mecanismos de controlo como taxas moderadoras, referenciação obrigatória e vias verdes. Nada disso resolveu o problema de fundo.

Portugal apresenta hoje cerca de 64 episódios de urgência por 100 habitantes, o dobro da média da OCDE. Estima-se que 45% destes episódios sejam pouco urgentes ou não urgentes. Usamos muito e mal os serviços de urgência.

A explicação mediática mais comum aponta para “falhas de acesso”, mas os dados não a confirmam: em 2024, cerca de 95% da população residia a menos de 60 minutos de uma urgência geral ou pediátrica. O acesso geográfico existe. O que falha é a organização.

Quando os números desmontam a narrativa

Em 2023, os casos “Pouco Urgentes” cumpriram os tempos-alvo entre 78% e 85% das vezes. Mas os casos graves ficaram muito aquém: 44,4% nos “Muito Urgentes” e 66,5% nos “Urgentes”.

Significa algo simples e inquietante: o sistema responde melhor aos casos ligeiros do que aos críticos. Reforça comportamentos errados e falha exatamente onde deveria ser mais rápido e rigoroso.

Enquanto a comunicação social destaca as 12 horas de espera, o problema real está no congestionamento clínico que compromete os mais graves. O chamado Emergency Department Crowding é um fator bem documentado que aumenta a mortalidade. Não é ruído mediático. É risco concreto.

A urgência como falha de sistema, não de pessoas

Nada disto acontece por falta de empenho dos profissionais. Acontece porque o desenho do sistema privilegia fluxos simples e penaliza os complexos. Um doente pouco urgente tem percurso linear, rápido, com poucos exames e alta célere. Um doente grave exige tempo, observação, camas, reavaliação – recursos escassos num sistema saturado.

O hospital moderno continua a funcionar como um conjunto de silos, pouco permeável à organização de processos e à tecnologia de apoio à decisão. Discutimos obsessivamente o “tempo até ao primeiro atendimento”, mas ignoramos o que realmente bloqueia o sistema: tempo de permanência, gestão de macas, internamentos, equipas de reavaliação e autonomia de enfermagem.

Não se trata de gastar mais. Trata-se de gerir melhor e alinhar incentivos financeiros ao propósito de cuidar melhor.

Fingir ou transformar?

A fotografia que nos chocou não é um caso isolado. É um retrato de como escolhemos conviver com falhas estruturais. A urgência tornou-se um espelho da sociedade: não apenas da saúde, mas da nossa capacidade de cuidar uns dos outros, de organizar o Estado e de assumir responsabilidades coletivas.

Fingimos que a dignidade no fim de vida é garantida por boas intenções, quando na realidade fica à mercê do acaso. Fingimos que a saúde depende apenas de recursos, quando o verdadeiro desafio é articular cuidados, prioridades e responsabilidades ao longo da vida. Fingimos que os paliativos são opcionais, quando na prática são o termómetro de uma sociedade capaz de cuidar de todos – até ao fim. Fingimos que a eutanásia é liberdade, quando é, muitas vezes, resposta à ineficácia que nós mesmos permitimos.

E enquanto fingirmos, assistiremos ao espetáculo do caos. Mas não é inevitável. É uma escolha – consciente ou inconsciente – de não organizar, de não governar, de não transformar.

A coragem de reformar

A verdadeira reforma não se mede em macas ou corredores livres. Mede-se na coragem de assumir que a saúde é civilização, que a dignidade do fim de vida é tão importante quanto a rapidez do primeiro atendimento, e que um sistema que não integra cuidados paliativos, primários e hospitalares falha moral e estrategicamente.

Portugal não precisa de mais urgências. Precisa decidir se quer continuar a gerir crises ou governar cuidado. Uma escolha civilizacional, política, ética e estratégica.

Não se trata de opor público e privado, mas de olhar de frente para a realidade: quem recorre às urgências, porquê, e como passam pelos circuitos do sistema? Gastamos mais, mas continuamos a obter menos. A pergunta que fica é simples e desconfortável: como pode um sistema que gasta mais entregar menos e ainda preservar dignidade e equidade?

Reformar os serviços de urgência é, sobretudo, reformar a forma como acompanhamos a doença ao longo da vida: cuidados de saúde primários capacitado, equipas comunitárias que previnem agudizações evitáveis, respostas paliativas que impedem a viagem desnecessária à urgência, tecnologia simples que antecipa risco em vez de apenas registar episódios, modelos de financiamento que premiem quem evita internamentos e não apenas quem os preenche. Há experiências dispersas em Portugal que mostram que isto é possível (vejam-se os exemplos da parcerias público-privadas): falta assumir a decisão política de as tornar regra e não exceção. A urgência deixa então de ser o labirinto onde tudo acaba para ser apenas uma das muitas portas de um sistema que sabe cuidar, mesmo quando já não pode curar.

Gestor// Escreve no SAPO, quinzenalmente, à quinta-feira

Referências Bibliográficas:
1. OCDE (2023): Health at a Glance. Portugal no topo do uso de urgências per capita.
2. Entidade Reguladora da Saúde (2024): Relatório de Monitorização do Acesso Geográfico.
3. Morley, C., et al. (2018): “Emergency department crowding: A systematic review”. PLOS ONE.
4. Wiler, J. L., et al. (2016): “Strategies for High-Volume Emergency Departments”. Annals of Emergency Medicine.
5. Observatório Português dos Cuidados Paliativos (2024): Dados sobre falhas na rede nacional e impacto no fim de vida.

Fonte: Lifestyle Sapo

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