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Vamos falar sobre crianças: um convite à ação coletiva

Segundo o provérbio africano “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. É uma imagem poderosa e reconfortante. Mas enquanto psiquiatra e coordenador de um projeto que mergulha diariamente na realidade das famílias portuguesas, questiono-me frequentemente: o que acontece às crianças quando a “aldeia” — os pais, a família, a comunidade — adoece?

Em Portugal, sabemos que cerca de 30% dos jovens apresentam sintomas depressivos. E sabemos também que somos o segundo país da Europa com maior prevalência de doenças psiquiátricas nos adultos.

Foi esta realidade — o sofrimento dos adultos e a vulnerabilidade dos jovens — que motivou a nossa equipa a trazer para Portugal, através da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, o modelo Let’s Talk About Children (Vamos Falar sobre Crianças). Trouxemos da Finlândia não apenas uma metodologia, mas uma nova filosofia de cuidado.

A saúde mental é familiar, não individual

Tenho insistido, em diversas intervenções públicas, num pressuposto fundamental: o nosso estado de saúde interfere inevitavelmente nas pessoas que estão à nossa volta, nomeadamente nos nossos filhos.

Durante demasiado tempo, o nosso sistema de saúde tratou o doente de forma isolada. Tratamos a depressão do pai, a ansiedade da mãe ou a demência do avô, mas raramente perguntamos: “Como é que isto está a afetar o seu filho? Alguém lhe explicou o que se passa?”.

O Let’s Talk About Children veio preencher este vazio. O nosso objetivo é combater a transmissão intergeracional de problemas. Se não apoiarmos a parentalidade quando um adulto adoece, estamos, na prática, a incubar a próxima geração de utentes da saúde mental. Intervir na família não é um “luxo”; é a forma mais eficaz de prevenção primária que temos ao nosso dispor.

O lado humano da técnica

Formámos enfermeiros, psicólogos, médicos, professores, assistentes sociais e outros profissionais para terem uma conversa estruturada com os pais. Não se trata de terapia intensiva: são diálogos simples, numa lógica preventiva. Perguntas como “como está a sua filha depois da separação?”, “que momentos positivos partilham em família?”, ou “há alguém de confiança na escola?”, que ajudam a detectar sinais precoces de problemas e a reforçar o que já funciona bem. Estas conversas levam-nos ao encontro das famílias antes que os problemas se enraízem — enquanto ainda há tempo para agir — e reorganizam a colaboração entre os setores que cuidam da criança: escola, saúde e comunidade. Não para os julgar, não para fazer uma auditoria às suas competências parentais — algo que as famílias temem profundamente —, mas para criar uma aliança.

Esta mudança de paradigma, do julgamento para a compreensão mútua, é o maior sucesso do projeto. Validámos a ideia de que é possível falar sobre vulnerabilidade sem estigma, e que os pais, quando devidamente apoiados, são os melhores promotores de saúde mental dos seus filhos.

O desafio do sistema: A luta contra o tempo

Trazer um método criado na Finlândia para a realidade portuguesa expôs as fragilidades do nosso sistema. O método exige tempo. Exige disponibilidade para sentar, ouvir e convocar a rede de apoio. Ora, vivemos num Serviço Nacional de Saúde sob pressão assistencial e numa Escola Pública muitas vezes soterrada em burocracia. Tenho visto profissionais extraordinários, entusiasmados com o método LTC, a lutar para encontrar espaço na agenda para o aplicar.

Se não criarmos tempos protegidos para estas intervenções, corremos o risco de desperdiçar uma ferramenta poderosa. Não podemos depender eternamente da “carolice” e do sacrifício pessoal dos profissionais de saúde e educação. A prevenção exige estrutura, e a estrutura exige investimento de tempo.

Investir hoje para não gastar amanhã

Ora, mesmo usando uma perspetiva estritamente económica a evidência é clara: a prevenção poupa milhões. Uma criança que hoje é apoiada, que entende o contexto familiar e que desenvolve resiliência, é um adulto que amanhã não precisará de tratamentos intensivos ou de uma baixa psiquiátrica prolongada. Capacitar quem já está no terreno é infinitamente mais sustentável do que tentar remediar doenças crónicas daqui a vinte anos.

Um apelo à ação

O desafio que agora lanço, à sociedade civil e aos decisores políticos, é o de transformar este projeto numa política. Portugal não pode contentar-se com projetos-piloto de sucesso. Precisamos de integrar esta filosofia no ADN das nossas políticas de Família, Saúde , Educação e de Segurança Social.

Proteger a infância é garantir que, quando o mundo dos pais treme, existe uma rede que impede a criança de cair. Essa rede constrói-se com ciência, com empatia e com coragem política. Da minha parte, e da parte de toda a equipa que coordeno, o compromisso mantém-se inabalável: continuaremos a trabalhar para que nenhuma criança fique invisível perante o sofrimento da sua aldeia.

Professor Associado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e Coordenador Nacional do projeto Let’s Talk About Children

Fonte: Lifestyle Sapo

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