Notícias

É importante deixar de encarar a doença alérgica como passageiro

Publicidade - continue a ler a seguir

As doenças alérgicas e respiratórias continuam entre as patologias crónicas mais prevalentes em Portugal. Do ponto de vista da Imunoalergologia, que problemas continuam a ser mais subvalorizados na prática clínica?
As doenças alérgicas e respiratórias são, como disse, doenças crónicas. Têm uma característica algo única quando comparadas com outras patologias crónicas: afetam desde crianças em idade pré-escolar até adultos muito idosos, ou seja, são transversais a todas as idades e com uma elevada prevalência.

Estamos a falar de asma, rinite, dermatite atópica, urticária, alergias alimentares e alergias a medicamentos, entre outras. O grande desafio continua a ser o diagnóstico. Apesar de termos uma especialidade bem implementada em Portugal, com um rácio razoável de distribuição de especialistas pela população, muitas pessoas continuam a sofrer bastante porque são tardiamente identificadas e, muitas vezes, também tardiamente referenciadas para a especialidade quando indicado.

A isto acresce o facto de os doentes raramente terem apenas uma doença. As patologias associam-se: a pessoa tem asma e rinite, rinite e alergia alimentar, dermatite atópica e asma. Essa complexidade pode levar à dispersão de recursos quando, na verdade, um bom diagnóstico e um acompanhamento adequado permitem melhorar muito a qualidade de vida e reduzir significativamente os custos associados ao controlo da doença.

 

Onde é que hoje estão as maiores falhas: no acesso, na decisão clínica ou na articulação entre cuidados?
Penso que é fundamental a interação entre todos os intervenientes, nomeadamente entre os cuidados de saúde primários e os cuidados mais diferenciados. Esse diálogo tem vindo a melhorar e isso é claramente positivo.

Ainda assim, continuamos a sentir que muitas pessoas demoram demasiado tempo a chegar ao diagnóstico correto e, depois, aos tratamentos adequados. Recentemente, por exemplo, realizámos um webinar onde se discutiu bastante a rinite alérgica. Sendo esta a doença crónica mais frequente na população — afetando pelo menos 25 a 30% das pessoas —, é impressionante que continuemos a observar, em consulta, doentes que já passaram por vários serviços, incluindo urgências, e que continuam a ser tratados com medicamentos que já não têm qualquer justificação.

Estamos a falar da utilização de anti-histamínicos de primeira geração ou do uso excessivo de antibióticos para tratar situações que são claramente alérgicas. Isto mostra que ainda há muito a corrigir e reforça a importância de fortalecer o diálogo entre a Medicina Geral e Familiar, a Imunoalergologia e outras especialidades, para melhorar a prática clínica e os resultados para os doentes.

É por esta razão que se justificam este tipo de reuniões, para discutir as melhores práticas com os melhores resultados possíveis.

 

A maioria destes doentes é seguida inicialmente em Medicina Geral e Familiar. Que aspetos da abordagem das doenças alérgicas gostaria que estivessem mais consolidados nos cuidados de saúde primários?
Estes doentes são, e devem continuar a ser, acompanhados maioritariamente nos cuidados de saúde primários, porque aí existe uma abordagem holística da pessoa. Os doentes não têm apenas doença alérgica; têm outras patologias e necessidades de promoção da saúde que vão muito além da alergia.

No entanto, é essencial compreender que existe uma inflamação crónica, maioritariamente alérgica, que tem de ser controlada e que devemos apostar na promoção da saúde através da prevenção. Sendo doenças crónicas, o diagnóstico deve ser corretamente estabelecido e os exames adequados devem ser realizados viabilizando uma abordagem correta.

Neste evento também será muito debatido, por exemplo, o tema das doenças respiratórias obstrutivas, como a asma ou a DPOC. Sabemos que ainda hoje muitas pessoas nunca realizaram uma prova de função respiratória, como a espirometria com prova de broncodilatação. Porém, sem quantificar e avaliar o dano funcional, não conseguimos diagnosticar e adequar um bom programa terapêutico.

É importante deixar de encarar a doença alérgica e respiratória como algo passageiro — “é só uma alergia e passa” — porque não passa. É uma condição que acompanha muitas pessoas ao longo do seu ciclo de vida.

Diria que as questões principais são: o reconhecimento efetivo da doença alérgica como uma patologia presente ao longo de toda a vida, e a necessidade de um uso mais racional dos exames complementares. Por vezes, recorre-se excessivamente a exames de imagiologia ou laboratoriais, enquanto os estudos funcionais, que são de baixo custo e de grande utilidade clínica, continuam pouco acessíveis ou subutilizados. O sistema de saúde tem de garantir o acesso a estes exames, porque isso traduz-se em melhor qualidade de vida e melhores resultados clínicos.

 

Foi precisamente para colmatar essas falhas que surgiu este evento?
Exatamente e acreditamos que as pessoas continuam entusiasmadas. Por exemplo, associado ao Summit, realizámos recentemente vários webinares, com uma adesão que tem sido crescente, e o feedback foi muito positivo: prático, pragmático e com ferramentas úteis para a prática clínica.

O objetivo é capacitar os profissionais para lidarem com estas doenças ao longo de todo o ciclo de vida, desde a criança em idade pré-escolar até ao adulto idoso. É também importante perceber que, além da asma e da rinite, existem outras patologias associadas, como a rinosinusite ou a patologia do sono. Muitas destas pessoas fumam e desenvolvem DPOC, e há ainda o impacto das alergias alimentares e medicamentosas.

Tudo isto é discutido no evento, incluindo através de iniciativas mais interativas, como a “Allergy and Respiratoty League – 2026 Edition”, que no final do primeiro dia do evento permite testar conhecimentos e, ao mesmo tempo, reforçar informação relevante para melhorar a prática clínica. E os vencedores são premiados!

 

Mas produzem também conteúdos dirigidos ao público em geral?
Sim, produzimos. Estamos a iniciar a distribuição de uma coleção de pequenos livros intitulada “O Essencial de…”, como O Essencial da Asma, O Essencial da Rinite, O Essencial da Dermatite Atópica ou O Essencial da Anafilaxia, entre outros. São materiais de leitura simples, bem ilustrados, dirigidos tanto a profissionais de saúde como à população em geral.

O objetivo não é substituir decisões clínicas, mas facilitar o acesso à informação e aumentar o conhecimento. No site do Allergy and Respiratory Education também disponibilizamos materiais educativos, artigos relevantes e conteúdos dirigidos a médicos, farmacêuticos, enfermeiros e outros profissionais interessados nesta área.

Além disso, os webinars e as sessões do Summit ficam disponíveis após o evento. Nesta reunião, cerca de um terço dos participantes estará presencialmente, mas dois terços — num total de mais de mil colegas — participarão à distância, com possibilidade de rever as sessões posteriormente.

 

Contam com quantos participantes este ano?
No ano passado atingimos cerca de 1 100 participantes e, este ano, esperamos ultrapassar esse número, sendo esta uma atividade com acreditação europeia (UEMS) e também nacional, nomeadamente pelas Ordem dos Médicos e pela Ordem dos Farmacêuticos, o que muito nos honra.

 

Quer deixar uma mensagem aos participantes?
É um prazer acolher todos nesta troca de saberes. Nós próprios aprendemos muito com estas discussões. São sessões clínicas abertas, práticas, com espaço para perguntas e esclarecimento de dúvidas.

O convite é para que participem e que o prazer retirado desta ação seja, pelo menos, tão grande como aquele que nós, enquanto formadores, retiramos, e que nos permite também melhorar a nossa prática enquanto profissionais de saúde e enquanto facilitadores de educação e formação.

 

Sílvia Malheiro 

Notícia relacionada

Allergy and Respiratory Summit 2026: Atualização e formação contínua

Fonte: Saúde Online

94,589Fans
287seguidores
6,774seguidores
3,579Seguidores
105Subscritores
3,431Membros
 Segue o nosso canal
Faz um DonativoFaz um donativo
Publicidade - continue a ler a seguir

Seja membro da PortalEnf 




Portalenf Comunidade de Saúde

A PortalEnf é um Portal de Saúde on-line que tem por objectivo divulgar tutoriais e notícias sobre a Saúde e a Enfermagem de forma a promover o conhecimento entre os seus membros.

Artigos Relacionados

Deixe um comentário

Publicidade - continue a ler a seguir
Botão Voltar ao Topo
Send this to a friend