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Quando a liderança motiva, os cuidados ganham valor

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Liliana Grade, RN, MSc; Especialista em enfermagem de Reabilitação; Especialista em gestão de unidades de saúde; Vogal (supl) do C Fiscal da APEGEL

Nos dias de hoje, falar de liderança em saúde, e em particular em enfermagem, é mais do que abordar estilos de gestão ou modelos teóricos. É refletir sobre pessoas, contextos exigentes e organizações que enfrentam grandes desafios estruturais, como a escassez de profissionais, o desgaste emocional das equipas e a necessidade constante de garantir qualidade e segurança dos cuidados. É neste cenário que a liderança assume um papel central na motivação dos profissionais e na criação de valor organizacional.

Durante muito tempo, a liderança em saúde foi associada a cargos, hierarquias e controlo. Contudo, a complexidade atual dos serviços de saúde exige uma mudança clara de paradigma. Liderar já não significa apenas organizar recursos e distribuir tarefas; significa influenciar positivamente, inspirar, criar ambientes seguros e promover o crescimento individual e coletivo. Desta forma, a liderança eficaz deixou de ser uma opção desejável para se tornar uma necessidade estratégica.

Um líder em saúde, atualmente, deve considerar a sua atuação em valores como a empatia, a ética e a responsabilidade. A capacidade de se colocar no lugar do outro, de compreender dificuldades individuais e de agir com justiça e transparência tem impacto direto na motivação das equipas. Liderar pelo exemplo continua a ser uma das ferramentas mais poderosas: a coerência entre discurso e prática é, muitas vezes, o fator que mais fortalece a confiança dos profissionais.

No contexto atual, marcado por elevada pressão assistencial e mudanças constantes, a liderança exige também adaptabilidade e inteligência emocional. Os líderes são chamados a gerir conflitos, lidar com frustrações e tomar decisões difíceis, sem perder de vista o bem-estar das equipas. Um líder que reconhece emoções, próprias e dos outros, e que comunica de forma clara e respeitosa, contribui para um clima organizacional mais saudável e produtivo.

A motivação em enfermagem é outro eixo fundamental desta reflexão. Importa questionar: estamos sempre motivados? A resposta, de forma honesta, é não. A motivação não é um estado permanente nem pode ser exigida de forma acrítica, sobretudo em contextos de sobrecarga e escassez de recursos. No entanto, é possível – e desejável – promover uma motivação proativa, sustentada no reconhecimento, na autonomia e no sentido de pertença.

Os profissionais de enfermagem sentem-se mais motivados quando percecionam que o seu trabalho tem impacto, que as suas competências são valorizadas e que existe espaço para crescimento profissional. A liderança tem aqui um papel determinante: reconhecer esforços, incentivar o desenvolvimento de competências e envolver os profissionais nos processos de decisão são estratégias simples, mas profundamente transformadoras.

No entanto só os enfermeiros liderados necessitam de motivação? E os lideres? Onde vão buscar motivação? São inúmeros os desafios da liderança em Portugal, a escassez de recursos humanos nos dias de hoje, a necessidade de melhorar a gestão de equipas, a relevância da formação contínua para que as equipas consigam  seguir a inovação, e a valorização do enfermeiro gestor.

O enfermeiro gestor algumas vezes sente-se de “pés e mão atadas”. Quantas vezes já se sentiram incapazes de manter a qualidade dos cuidados quando os recursos humanos são diminutos? E quantas vezes o enfermeiro gestor é incompreendido por determinadas decisões que tem que tomar?  No entanto é aqui que a comunicação surge como um elemento transversal e estruturante da liderança. A forma como o líder comunica – verbal e não verbalmente – influencia a motivação, o compromisso e a confiança das equipas. Comunicar para motivar implica conhecer os profissionais, compreender os seus perfis, expectativas e necessidades, e adequar a mensagem a cada contexto.

Comunicar bem é também essencial no processo de delegação. Delegar não é abdicar de responsabilidades, mas sim confiar, desenvolver talentos e promover autonomia. Conhecer os pontos fortes de cada elemento da equipa permite atribuir tarefas de forma mais eficaz e justa. Uma delegação clara, com objetivos definidos e feedback contínuo, fortalece a responsabilização e o envolvimento dos profissionais. Pelo contrário, a ausência de delegação pode ser interpretada como falta de confiança e limitar o crescimento da equipa e do próprio líder.

A relação entre liderança, motivação e qualidade dos cuidados é direta e amplamente reconhecida. Equipas motivadas, que se sentem apoiadas e valorizadas, tendem a apresentar melhores resultados assistenciais, maior adesão às boas práticas e maior compromisso com a segurança do doente. Assim, a liderança em enfermagem contribui não apenas para indicadores de desempenho, mas para a criação de verdadeiro valor organizacional, assente em pessoas, relações e confiança.

Em conclusão, liderar em saúde é assumir uma responsabilidade acrescida sobre pessoas e contextos humanos complexos. Não se trata de fazer menos, mas de fazer mais: mais escuta, mais presença, mais coerência e mais compromisso. A liderança exige tempo, energia e disponibilidade emocional, e os seus resultados nem sempre são imediatos ou facilmente mensuráveis. Ainda assim, é através de líderes conscientes, éticos e inspiradores que se constroem organizações mais fortes, equipas mais motivadas e cuidados de saúde de maior qualidade.

 

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