
Professor Nikita Khmelinskii, “Não há um único lúpus, mas vários subtipos de doença”
HealthNews (HN) – Como caracteriza a situação epidemiológica das doenças reumáticas autoimunes em Portugal, nomeadamente no que diz respeito à sua prevalência e impacto na qualidade de vida e capacidade laboral da população adulta?
Nikita Khmelinskii (NK( – Em Portugal, as doenças reumáticas autoimunes — como o Lúpus Eritematoso Sistémico (LES) — não são muito frequentes, mas têm grande impacto na vida das pessoas. O LES, cuja prevalência se estima ser de aproximadamente 50 casos para 100000 habitantes, afeta sobretudo mulheres jovens, muitas vezes numa fase ativa da vida profissional e familiar. Para além dos sintomas que mais se fazem sentir, como cansaço extremo, dores articulares, alterações na pele ou inflamação de órgãos, a doença é marcada por períodos de maior ou menor atividade, dificultando a gestão do dia-a-dia. Esta instabilidade leva ao absentismo laboral, diminuição da produtividade e, em casos mais graves, limitações duradouras.
HN – Tendo em conta a visão atual do lúpus eritematoso sistémico (LES) como uma doença heterogénea, que avanços recentes na compreensão das suas vias imunológicas têm sido mais determinantes para o desenvolvimento de novas terapêuticas-alvo?
NK – Sabemos agora que a doença resulta de várias alterações no sistema imunitário, que deveria defender-nos, mas que passa a atacar tecidos do próprio corpo. Uma dessas vias é a do interferão tipo I, uma proteína que em excesso mantém o sistema imunitário permanentemente ativo. Também as células B, responsáveis pela produção de anticorpos, têm um papel central quando se tornam autorreativas. Estes avanços permitiram criar tratamentos inovadores, como medicamentos dirigidos especificamente a estas vias.
HN – Os biomarcadores emergentes, nomeadamente os relacionados com a via do interferon ou outros, estão a mudar a prática clínica no LES? De que forma podem contribuir para um diagnóstico mais precoce e para uma monitorização mais precisa da atividade da doença?
NK – A investigação também tem trazido novos exames, chamados “biomarcadores”, que ajudam a perceber melhor o comportamento da doença. Alguns permitem identificar precocemente quando o sistema imunitário está demasiado ativo, mesmo antes de surgirem sintomas evidentes. Outros ajudam a vigiar, por exemplo, a inflamação renal — um dos órgãos mais afetados no LES — com maior precisão do que os exames tradicionais. Embora estes testes ainda não estejam disponíveis em todos os hospitais, representam um futuro em que o diagnóstico será mais rápido e a monitorização mais rigorosa.
HN – O conceito de medicina de precisão começa a ser uma realidade na Reumatologia, em particular no LES? É já possível estratificar os doentes para selecionar a terapia mais adequada ao seu perfil imunológico específico?
NK – A chamada “medicina de precisão”, que consiste em adaptar o tratamento ao perfil biológico de cada pessoa, começa a ganhar espaço na Reumatologia. No LES, isto significa compreender que não há “um único lúpus”, mas vários subtipos de doença, com mecanismos diferentes. Idealmente conseguiremos identificar qual a via imunitária predominante em cada doente e, assim, escolher o tratamento mais adequado — por exemplo, terapias anti-interferão para quem tem esta via especialmente ativa, medicamentos dirigidos às células B para quem apresenta maior produção de anticorpos autorreativos ou, em casos muito complexos, considerar terapias mais profundas como as células CAR-T. Embora esta abordagem esteja ainda numa fase inicial, o caminho está claramente traçado.
HN – A demora diagnóstica continua a ser um dos principais obstáculos no LES. Que estratégias podem ser implementadas, tanto a nível de formação médica como de organização dos cuidados de saúde, para reduzir este intervalo de tempo e melhorar o prognóstico a longo prazo?
NK – Um dos grandes desafios no LES é o atraso no diagnóstico, porque os sintomas são variados e podem parecer problemas isolados. Para reduzir esta demora, é essencial que médicos de várias áreas — e não apenas reumatologistas — estejam treinados para reconhecer sinais que podem sugerir lúpus. Também é importante ter vias de referenciação rápidas para centros especializados e em que a colaboração multidisciplinar (como Reumatologia, Nefrologia e Dermatologia) ajude no acelerar do processo.
HN – A complexidade do regime terapêutico e o perfil de efeitos secundários dos medicamentos são frequentemente barreiras à adesão. Perante o arsenal terapêutico em evolução, que abordagens estão a ser adotadas para melhorar a adesão do doente e a gestão partilhada da doença?
NK – A adesão ao tratamento é frequentemente difícil, sobretudo porque alguns medicamentos têm efeitos secundários e os esquemas podem ser complexos. Aposta-se muito na educação do doente: explicar claramente para que serve cada medicamento, quais os benefícios e riscos, e como interpretar sinais de atividade da doença. Consultas de enfermagem, aplicações móveis e a inovação terapêutica ajudam, mas a chave é sempre uma relação aberta entre médico e doente, em que as decisões são tomadas em conjunto.
HN – Para lá do controlo da atividade da doença, a gestão de comorbilidades, como o risco cardiovascular acelerado ou as infeções, é crucial no LES. Como é que o reumatologista integra esta abordagem holística no acompanhamento clínico de rotina?
NK – Tratar o LES não é apenas controlar a inflamação. A doença aumenta o risco de problemas cardiovasculares, infeções, fragilidade óssea e dificuldades emocionais. Por isso, o acompanhamento deve ser global: controlar a pressão arterial e o colesterol, manter o plano de vacinação atualizado, vigiar a qualidade de vida, ajustar a alimentação e incentivar a atividade física. Muitas vezes é necessário trabalho multidimensional e em equipa com outros especialistas. Esta visão abrangente é fundamental para garantir que a pessoa vive não só mais tempo, mas com melhor qualidade de vida.
Entrevista MMM




